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CODICILO



I

O segredo indecifrável de amar
Guardado a sete chaves em meu peito
Sabê-lo-á quem cultivar perfeito
Desejo de despir-se ao luar

E ser feliz pela vida e cantar
E ao nobre Cupido render preito
Seguindo-lhe fielmente o preceito
De deixar-se simplesmente inundar

Da atmosfera de sonho e fantasia
Que acompanha a vida noite e dia
De quem busca fugir dos desenganos...

O segredo que guardo um dia hei
De revelá-lo a uma fina grei
Quando o peso eu sentir dos anos!

II

Quando o peso eu sentir dos anos
E assaltar-me a névoa da tristeza
Quando em nada já não vir beleza
E mesmo assim buscar prazeres lhanos

Que me levem muito além dos oceanos
Esses desejos plenos de surpresa
E que meu estro registre com presteza
O mais antigo sonho dos humanos:

Viver eternamente a aventura
De amar e ser amado com ternura
E de viver eternamente em paz...

Mas, na impossibilidade - ó tormentos -
Hei de levar o gozo dos momentos
Bem vividos que passei entre os mortais!

III

Bem vividos que passei entre os mortais
Foram os anos de vida abençoada
Em que gozei ao colo esquerdo da Amada
De um sonho onde a ternura se compraz!

E se agora não me apetece mais
Lançar mão da viola enluarada
E sair serenando à Namorada
Versos que prenunciem temporais

De amor, é que eu estou já no outono
Da vida, meio largado ao abandono
De ver envelhecido o cartaz

Que do circo anunciava a atração...
E hei de sentir bater meu coração
Quando a brisa assustar-me de fugaz!

IV

Quando a brisa assustar-me de fugaz
E aos poucos me faltar tenacidade
Para erguer minha voz com liberdade
Por sobre a crista da montanha audaz

Quando o brilho marrom dos coqueirais
Sugado pela luminosidade
Da vaga lua, cheia e branca de saudade,
Pousar na solidão dos corumbás,

Hei de erguer a fronte já cansada
Pra receber o carinho da Amada
Que por mim atravessou os oceanos...

E, qual criança, brincando coelho sai
Perseguirei a brisa que se vai
Correndo solta atrás dos minuanos.

V

(Correndo solta atrás dos minuanos
Vai minha Amada, lépida e faceira
Sem saber que dentro da algibeira
Trago-lhe versos lúbricos, profanos...)

Ah! Como eram mui felizes esses anos
Bem retratados na quadra primeira
Em que viviam à minha soleira
A Fé, a Paz, o Amor e seus arcanos!

Mas isto agora tudo está distante:
Já se ofusca o majestoso diamante
E se quebram as teclas dos pianos...

E eu me pergunto - crente, resoluto -
Quando virá me lamentar o luto?
Quando os carinhos longínquos, profanos?...

VI

Quando os carinhos longínquos, profanos
Da donzela que me trouxe ao seio
Forem raros e não houver mais meio
De acalentar os meus gritos insanos

Quando os raios argênteos, mundanos
Da triste lua puserem sem receio
Suas garras em meus cabelos, creio
Que deste feito não estarão ufanos

Aqueles que partilham da tristeza
Que existe em meus versos! Com certeza
Lembrar-me-ão em alegres saturnais...

E hão de ser o perfume entre os espinhos
Quando nada mais restar-me e os carinhos
Da Bem-Amada não me buscarem mais!

VII

Da Bem-Amada não me buscarem mais
As lembranças de tudo o que vivemos
É que o cume do monte galgaremos
Que se chama Delícias Eternais!

E se as nuvens trouxerem vendavais
E as lembranças amargas que sofremos
Forem uma constante (que diremos?)...
Têm sua beleza as tardes outonais!

Quando do peito faltar-me a energia
Que de meu rosto mostrava a alegria
Estampada ao atingir meus ideais

Hei de feliz, ser mais que uma lembrança
Num quadro azul de sala, e com bonança
Hei de estar no mausoléu da paz!

VIII

Hei de estar no mausoléu da paz
A descansar de toda a amargura
Que sofri quando perdi a ternura
De minh’alma há algum tempo atrás

Quando, feliz, meu ser o sonho audaz
Fomentava de por em partitura
A humana alegria, e pôs tristura
Que tornou a beleza ineficaz!...

Hei de estar em meu lugar sagrado
Descansando em paz, feliz, malgrado
Seja meu corpo comido por gusanos...

A vida é assim! Há que aceitar-se
Que toda pompa um dia há de findar-se
Em recônditos tristes e lejanos!

IX

Em recônditos tristes e lejanos
Se finda toda a soberba humana
Qual se os olhos atentos da cigana
Refletissem seus desejos levianos!

É o fim da glória dos vesuvianos
Brasidos que se veem da persiana
Da saudade, e ninguém chega ao Nirvana
Apegado a sonhos vãos, horacianos!

É preciso viver intensamente
O hoje que se dá como presente
E desprezar a desgraça, o infortúnio!

Esse é o lema que eu tenho vivido,
Meu segredo, meu tesouro escondido
E o que tenho de sagrado e apolúnio!

X

E o que tenho de sagrado e apolúnio
Para quem hei de deixar um dia?
Era essa a pergunta que eu fazia
Orbitando em belo perilúnio

Sem sequer uma resposta!... (Impune o
Verso segue em frente! Quem diria?)
E a mim, resta, com sabedoria,
Guardar meu segredo intercolúnio!

Mas, se um dia alguém me perguntar:
O que deixas a quem se debruçar
Sobre tua alma e teu ser neptúnio?...

- Deixo as juras de amor à Namorada,
Os carinhos que roubei da Bem-Amada
Uns poucos versos, todo o plenilúnio!

XI

Uns poucos versos, todo o plenilúnio
E o beijo da aurora renascida
Eis tudo o que me é caro nesta vida
Que desfrutei altivo, alticolúnio,

No cimo do amor!... O novilúnio
Completou minha sina imerecida
Cheia de amores - riqueza escondida
Nas diáfanas asas de um interlúnio!

Isto que há pouco eu tinha em monopólio
Como tesouro, completa o espólio
Que pela vida a fora hei de deixar!

Mas lá pros longes da mansão sombria
Hei de levar comigo a poesia
E a aurora que nasce em teu olhar!

XII

E a aurora que nasce em teu olhar
E a noite que habita teus cabelos
E o arfar de teus lábios e os apelos
Do ditoso coração a demonstrar

Que na vida te hei de sempre amar
E nós entrelaçados em novelos
Tudo isto que guardado hei com zelos -
Meu espólio, com quem mesmo ficará?

O doce de teus olhos, a ternura
De tua alma a acenar-me com a ventura
De gozar plenamente a alegria

Isto tudo que animou o meu ser frágil
E livrou-me dos restos de um naufrágio,
Tudo isto deixarei a quem um dia?

XIII

Tudo isto deixarei a quem um dia
A minha alma virar pelo avesso;
A quem quiser encontrar o endereço
De minha tão combalida poesia!...

A quem também descobrir a eufonia
Escondida de modo tão travesso
No cerne de meu ser qual adereço
De um mundo de sonhos, fantasia!

É chegado o momento! O codicilo
Que ora faço me deixa tranquilo
Apenso ao testamento que outro dia

Publiquei. Nada a acrescentar, porém
Reiterar: Meu tesouro deixo a quem
Decifrar todo o meu ser que escondia...

XIV

Decifrar todo o meu ser que escondia
- Já não sei mais exatamente o quê -
É uma tarefa que dei a quem me lê
E degusta essa profana poesia!

Já meu estro se vai em letargia
Abrigar-se além do que se vê
E eu me quedo já quase a fenecer
Lembrando os dias bons, de alegria,

Que se perderam dos tempos na noite
Em que passei a zombar do fero açoite
Da Morte, sempre longe, d'além mar...

É já hora de deixar o meu legado
A quem puder desvendar, extasiado,
O segredo indecifrável de amar!

XV SÍNTESE (CODICILO)

Quando o peso eu sentir dos anos
Bem vividos que passei entre os mortais
Quando a brisa assustar-me de fugaz
Correndo solta atrás dos minuanos

Quando os carinhos longínquos, profanos,
Da Bem-Amada não me buscarem mais
Hei de estar no mausoléu da paz
Em recônditos tristes e lejanos!

E o que tenho de sagrado e apolúnio:
Uns poucos versos, todo o plenilúnio
E a aurora que nasce em teu olhar;

Tudo isto deixarei a quem um dia
Decifrar todo o meu ser que escondia
O segredo indecifrável de amar!

by Léo Frederico de Las Vegas

Apresentação

Cantinho da Saudade é o espaço virtual de compartilhamento de meus rabiscos de poesia produzidos desde 1994 até a atualidade, através dos quais canto a vida em suas múltiplas nuances! Os poemas que aqui vão são elaborados de acordo com as mais variadas regras e temáticas da arte poética clássica, moderna e contemporânea, consoante as múltiplas vozes de meus heterônimos!


Prefácio

Cantinho da Saudade é o meu blog
Onde quase sempre venho postar
Arrebóis, luas ternas, brisas do mar
E uma velha ternura de buldogue!

Mergulhe à vontade, mas não se afogue
Nas águas cristalinas desse mar...
Mas se razão faltar-lhe pra chorar,
É favor vir outro dia bem mais grogue,

Pois aqui encontrará um coração
Dilacerado sob o plenilúnio
De lembranças perenes de emoção

E saberá que da vida o infortúnio
É buscar, em vão, na velha madrugada,
O sorriso da Eterna Namorada!


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