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QUEM SOU EU?


Soneto-Síntese

Quem sou eu?... É a pergunta que me faço
Há algum tempo, sem resposta adequada.
Sou a brisa nos olhos verdes da Amada,
Sou o crepúsculo entre o beijo e o abraço!

Sou a vara de condão da nívea fada,
Sou o círculo que descreve o compasso
Sou da dança o mais elegante passo,
O Cavaleiro da treva mascarada!

De um orgasmo inesperado o murmúrio,
Dos sortilégios lascivos o augúrio,
O toque impaciente de alguém na Porta.

Sou da canção as notas inaudíveis,
Do saltimbanco as piruetas invisíveis,
A tumba fria da namorada morta!

I

Quem sou eu?... É a pergunta que me faço
Nos momentos de paz e solidão
Pois não é fácil saber do coração
Que ama a vida sem nenhum baraço.

Algumas vezes em meditação
Passando minha vida a limpo passo
E de que não me conheço um só traço
Assalta-me, vez ou outra, a sensação!

Quem sou eu?... Deus do céu, quem poderia
Nesta hora triste compreender-me a alma
Que se esconde, em meu ser, angustiada?

Eis a pergunta que dia após dia
Venho tentando decifrar com calma
Há algum tempo, sem resposta adequada.

II

Há algum tempo, sem resposta adequada,
Tentando eu venho descobrir em vão
O que se passa no longe rincão
De minha fértil alma indecifrada.

E, assim, às vezes, penso dar vazão
À parte oculta de meu ser - guardada
No anverso de minh’alma atribulada -
Singrando a superfície da emoção!

Então começa a parte mais difícil:
Pintar em traços nítidos meu ser
E, qual Dibis, entregar-me à jornada

De revelar ao mundo, de ofício,
O que penso que sou. Pois bem, prazer:
Sou a brisa nos olhos verdes da Amada.

III

Sou a brisa nos olhos verdes da Amada
Soprando uma fragrância de saudade
Sutilmente e, quiçá, com brevidade,
Sobre minha vã ausência constatada,

Buscando na irreal realidade
Compreender a origem da lufada
Que deixa uma ternura deslumbrada
Na vida de quem me ama de verdade.

Sou a brisa suave e cálida em essência
Que nos cílios da Amada faz seu ninho
Envolvendo seu corpo num amasso.

Sou o arrepio procurando a carência
Que nela deve haver do meu carinho,
Sou o crepúsculo entre o beijo e o abraço!

IV

Sou o crepúsculo entre o beijo e o abraço
Inaugurando a noite misteriosa
A aspirar o cheiro de rubra rosa
Da Amada na cadência de seu passo

Que me faz perceber, de vaporosa,
O quanto pode ter, sem embaraço,
A Visão que a esvair-se pelo espaço
Noturnamente beija-me ditosa!

Entre o abraço e o beijo sou o crepúsculo
A desenhar no céu lindos matizes
Para a noite nupcial, abençoada,

Onde havemos de viver lindo opúsculo
Eu e a minha deusa sempre felizes:
Sou a vara de condão da nívea fada!

V

Sou a vara de condão da nívea fada
Que transforma abóbora em carruagem
Trazendo na translúcida viagem
A minha eternamente Bem-Amada.

Sim, por ela eu me tomo de coragem
E transponho os portais da madrugada
Erguendo um brinde à iluminada
Estrela que devora qual voragem

Os meus insaciáveis pensamentos
Que transitam pela alma feminina
Envolvendo-a no meu sincero abraço.

Sim, da mulher são os meus sentimentos
E sou dela o que nela mais fascina:
Sou o círculo que descreve o compasso!

VI

Sou o círculo que descreve o compasso
Da alma que vagando enternecida
Procura, sim, alhures, pela vida
Viver da harmonia o descompasso!

E nessa busca levo de vencida
A solidão que quer tolher-me o traço
Que procura perpetuar o laço
Profundo laço que me une à vida!

E assim ao som sublime de uma valsa
Vou procurando decifrar meu ego
Em versos tristes que depois refaço

E, sonhadora, enfim, minh’alma alça
Voo às regiões sidéreas! Sim não nego:
Sou da dança o mais elegante passo.

VII

Sou da dança o mais elegante passo.
Por isso vibro intenso na cadência
Da música a soar sem reticência
Reboando inebriante pelo espaço

A ferir da Bem-Amada a tumescência
Dos seios que aconchego num abraço
E prossigo estreitando-a em um laço
De ternura do amor na inflorescência!

Oh, que imagem de esplêndida beleza
Formamos no valsar tranqüilo e lépido
A canção de glória e paz da alvorada!

Muda, queda-se em gozo a Natureza
Pois sabe quem sou: o valente, o intrépido,
O Cavaleiro da treva mascarada!

VIII

O Cavaleiro da treva mascarada
Que procura o favor de sua Dama
- A mulher a quem realmente ama
E que entre todas é a sua Bem-Amada! –

E a faz gozar muito além da cama
Os prazeres da jovem madrugada
Do céu iluminado na Alvorada
O belo plenilúnio, o panorama...

O jovem revoar dos passarinhos
E dos galos o canto matinal
Que anuncia de um novo dia o augúrio.

Sim! Tais belezas vou, pelos caminhos,
Mostrando à Amada, pois sou, afinal,
De um orgasmo inesperado o murmúrio.

IX

De um orgasmo inesperado o murmúrio
- Gemido arfante entre lençóis de seda -
Da jovem Bem-Amada que me enreda
Com as finas teias de gentil antúrio.

A amante de minh’alma muito leda
Sabendo que não tenho amor perjúrio
Cativa-me com o seu olhar telúrio
Reacendendo a vulcana labareda

Da paixão que marcou a minha vida
Com sutis e indeléveis cicatrizes
De um sentimento que eu julgara espúrio!

Ah, sou à flor de sua triste margarida
Prognóstico de seus dias felizes,
Dos sortilégios lascivos o augúrio!

X

Dos sortilégios lascivos o augúrio
Que anuncia chuva forte, trovoada
Dizendo que a eterna Namorada
Tem sentimento infiel, perjúrio!

Mas eu não creio do vento na lufada
E faço então aqui o meu dejúrio:
Quero que sejas, pois, o meu tugúrio,
E ser feliz contigo, ó Bem-Amada!

Pois que estás impregnada na minh’alma
De uma forma tal que desconfio
Que és do meu coração a linda aorta

Mas, eu quem sou? Talvez a talma
Que te cobre o busto... Ou o cicio...
O toque impaciente de alguém na Porta.

XI

O toque impaciente de alguém na Porta
Anunciando que chegou o dia
De desnudar-se d’alma a nostalgia
Que a alma dos poetas reconforta!

Sou o tom esverdeado da alegria
Que a beleza do amor transporta
A um mundo surreal! Sim, importa
Que seja assim: sonhos e fantasia!

Quem me dera saber quem sou de fato!
A tênue luz de vela enfraquecida
Que desenha pelo ar seres incríveis?!

Quem eu sou? Um poeta insensato?...
Não! Mas eu sou um alguém que ama a vida,
Sou da canção as notas inaudíveis!

XII

Sou da canção as notas inaudíveis
Ouvidas só pelos apaixonados
Que se deixam à toa ser levados
Por toadas românticas, sensíveis!

(Ah! O riso sem par dos namorados
Lembrando os momentos imperdíveis
E vividos a dois - indivisíveis -
Momentos para sempre partilhados!

Instantes que pra sempre na lembrança
Ficam visto que são instantes raros
E por ser raros são inesquecíveis!)

Da canção a partitura d’esperança
Sou! E do palhaço sou os risos claros,
Do saltimbanco as piruetas invisíveis!

XIII

Do saltimbanco as piruetas invisíveis
Feitas para agradar o bem-querer
Que sedento da fonte vem beber
De Calíope versos imperecíveis...

Ah! Quem me dera um artista ser
Para falar em versos implausíveis
Coisas bonitas às almas sensíveis
Que, porventura, me quisessem ler!

Mas sou indigno! Eu não sou Pessoa,
Nem Camões, Vinícius ou Quintana;
Meus parcos versos nem lhes vêm à porta!

Sou um pássaro sem asas que não voa,
Sou a paz tumular provinciana,
A tumba fria da namorada morta!

XIV

A tumba fria da Namorada morta.
Entretanto eu nem tenho Namorada!
Volta, pois, à estaca zero, a empreitada
De biografar a minha alma torta.

Já corri quase metade da estrada
E agora conhecer-me pouco importa...
Na vida um verso triste me conforta:
Sem poesia não vi nada dar em nada!

Quem sou eu, pois? Essa é a pergunta
Que não quer calar de forma alguma
E ecoa, infinitamente, pelo espaço...

Quem sou eu?... A Poesia vem, se junta
Ao Tempo, mas  resposta não há nenhuma...
Quem sou eu?... É a pergunta que me faço.

by Jaime Adilton Marques de Araújo

O soneto é comovente. Adorei ! Realmente, esses usineiros brincam com a miséria do povo. Semana passada estive conversando com um professor de economia da UERJ, ele me disse que o aumento do preço do álcool é por conta da valorização do açúcar no mercado internacional.
Ou seja, a cana que era usada na fabricação de combustível está virando açúcar para abastecer o mercado internacional. Se o governo quiser frear o aumento constante do álcool , evitando assim a inflação, terá que dar isenção ou subsidiar ainda mais a produção.
Concluindo, os caras não tão nem aí para a nação! Bjs
Ah, adorei o soneto de Maio !

Apresentação

Cantinho da Saudade é o espaço virtual de compartilhamento de meus rabiscos de poesia produzidos desde 1994 até a atualidade, através dos quais canto a vida em suas múltiplas nuances! Os poemas que aqui vão são elaborados de acordo com as mais variadas regras e temáticas da arte poética clássica, moderna e contemporânea, consoante as múltiplas vozes de meus heterônimos!


Prefácio

Cantinho da Saudade é o meu blog
Onde quase sempre venho postar
Arrebóis, luas ternas, brisas do mar,
E uma velha ternura de bulldog!

Mergulhe à vontade, mas não se afogue
Nas águas cristalinas desse mar.
E, se razão faltar-lhe pra chorar,
Volte, então, outro dia, bem mais grogue,

Pois aqui encontrará um coração
Dilacerado sob o plenilúnio
De lembranças perenes de emoção

E saberá que da vida o infortúnio
É, procurar, em vão, na madrugada,
O sorriso da Eterna Namorada!...


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